domingo, 4 de setembro de 2011

Porque queimam os campos da nossa Natureza

O dia 02 de Setembro de 2011 foi o primeiro dia das grandes queimadas na Serra Gaúcha. A temporada já havia começado, porém de forma ainda tímida. Mas os fazendeiros haviam errado pois ainda houve frio intenso com a formação de geadas, o que queimou os brotos do pasto que estavam nascendo após a queimada.

Funciona assim, na Serra Gaúcha, mais especificamente nos Campos de Cima da Serra: com a chegada do Inverno, que é muito rigoroso nessa parte do País, o campo nativo fica queimado com o gelo das geadas. O gelo queima, você sabe disso. Como a geada dura uma noite inteira por aqui, ou, às vezes, um pouco mais, as folhas das pastagens queimam e acabam morrendo. Ou seja, perdem o seu valor nutritivo, viram uma palha seca.

Essa palha seca acaba não alimentando o gado que está no campo e que tem um dono, um fazendeiro. Essa é a época da entressafra da carne do RS todo. O gado fica magro.

Quando se aproxima o fim do Inverno, o produtor rural (de rebanhos) aguarda o momento em que ele pode acabar de uma vez por todas com esse pasto queimado pela geada e, assim, dar lugar à nova pastagem, muito nutritiva para o seu gado e ganhar dinheiro com a venda da carne. Ou seja, o fazendeiro espera a elevação da temperatura, o fim do frio, e a chegada das chuvas da Primavera. Esse processo acontece naturalmente todos os anos (o fim do Inverno, o aumento da temperatura e as chuvas da Primavera).

O gado dos fazendeiros ainda enfrenta outro problema. O pasto queimado fica rígido e machuca o focinho das reses que tentam pegar brotos mais rentes ao solo. Por esse fator também não se alimenta direito.

Bem, assim que o Inverno acaba, o fazendeiro, em vez de retirar mecanicamente o pasto queimado, com máquinas (roçadeiras - tratores), ele se utiliza de uma forma incrivelmente mais fácil de fazer o trabalho. Aliás, o trabalho que ele não faz, que é o da retirada desse pasto seco. O único trabalho dele é atear fogo no campo. O fogo trabalha gratuitamente para ele, em detrimento do meio ambiente.

Imagine: o pasto está seco e foi ateado fogo. É juntar "a fome com a vontade de comer", ou seja, o fogo se alastra com facilidade espantosa. Ainda mais porque a passagem do Inverno para a Primavera acarreta em ventos mais fortes na região da Serra Gaúcha. É como se houvesse uma batalha em que o Inverno não quer sair, a Primavera quer chegar e o Sol já está retornando ao seu lugar de Verão (ou o planeta está mudando se ângulo em relação ao Sol, conforme o seu eixo movimenta-se), o que torna inexorável o fim do Inverno. Novamente, explicando, as geadas acabarão, a temperatura aumentará, as chuvas, que são abundantes o ano todo na região, continuarão.

Tudo isso faz com que, depois de ateado o fogo no campo, acabado o frio com formação de geadas, a temperatura começe a se elevar, chegadas as chuvas da Primavera, brote o muito nutritivo pasto novo para  alimentar o gado do fazendeiro.

O que devemos ter em mente é outra coisa da física: quando queimamos, qualquer coisa, há um resultado dessa combustão. Há, em primeiríssimo lugar, a carbonização de um combustível (o material que está sendo queimado), nesse caso as gramíneas secas pelo Inverno e uma imensurável e absurda quantidade de outros elementos, tais como inúmeros sais minerais e uma infinidade de seres vivos. Tudo é queimado. Tudo é combustível para o fogo. Outro resultado dessa combustão toda é a fumaça.

Uma fumaça muito densa (você já viu campos pegando fogo? Às vezes é uma barreira intransponível!) Como a quantidade de pasto a ser queimada está na casa dos milhares de hectares, juntando todos os fazendeiros produtores de carne dos Campos de Cima da Serra, a fumaça gira em torno das centenas de toneladas no ar atmosférico, sendo carregada pelos ventos até a fronteira Oeste do RS ou indo para o Sul (pois os ventos, ou as frentes frias, vindos do Sul estão barradas com o fim do Inverno).

Veja as fotos abaixo tiradas no dia 02 de Setembro de 2011, o primeiro dia de grandes queimas de campo no Rio Grande em 2011, em Caxias do Sul. Ainda havia mais um fator que contribuiu fortemente para que a situação chegasse naquele ponto: a umidade do ar estava em torno de 50% ou até, em certos momento, abaixo desse patamar (chegou a estar em 45% naquele dia).

Impressione-se com o ar que era respirado em toda a Serra Gaúcha, quer seja em Caxias do Sul, em Cambará do Sul, em Gramado, Canela ou Bento Gonçalves. Note na primeira foto, que mostra o horizonte da cidade, a camada escura de fumaça imediatamente acima da cidade e, mais alto, o céu lípido. E foi com esse céu limpo e atmosfera transparente que amanheceu naquele dia em Caxias do Sul.

Diferença de cores na atmosfera
Centro de Caxias do Sul esfumaçada

Ao fundo, Parque Mato Sartori envolvido pela fumaça

Fumaça sobre Caxias do Sul - detalhe
Centro de Caxias do Sul visto de longe 
O que houve nesse dia com a população que respirava esse ar enquanto trabalhava e fazia os seus afazeres diários? Com aquela quantidade de material particulado em suspensão no ar (fumaça e cinzas), como na maioria das combustões, imediatamente os olhos começaram a arder (as cinzas são ácidas, o que, chovendo nesse momento, cai um chuva ácida). Outras fatores também foram sentidos, concorrentes com a umidade baixa: irritação nos brônquios, garganta arranhando e boca e nariz secos.
O problema das queimadas não é apenas do meio ambiente. É também de saúde pública. As queimadas são proibidas e assim devem permanecer. O policiamento tem se preparado para a época das queimadas no RS (Agosto, Setembro e Outubro), mas não dá conta. Os produtores rurais chegam a combinar datas específicas para fazer a grande queima, em grandes números, o que dificulta a fiscalização.

A perda de habitat é o fator primordial para a extinção das espécies. As espécies, tanto animais quanto vegetais e outras, ainda, como fungos, são os que mantém o equilíbrio do nosso meio ambiente em que vivemos. O Estado deve intervir mais rigorosamente na questão das queimadas. Estamos vivendo num mundo em que a resiliência, isto é, a capacidade de retornar ao estado anterior, está cada vez mais fraca.

O planeta Terra é o único lugar em que podemos viver.

3 comentários:

vitor reis disse...

Há algo que precisa ser acrescentado... dentro desta visão, apresentando-se apenas os personagens como "fazendeiros" pode-se pressupor que são todos proprietários de vastas áreas e que disporiam de outros meios(e máquinas) para executar o intento de outro modo (correto = roçar). Contudo, deve-se referir que boa parte não pode ser apenas mencionada como fazendeiros, mas sim como proprietários de terras que se vivem, especialmente, dedicando-se a atividade pecuária. Boa parte destes, são pessoas que sequer possuem tratores e equipamentos para promover o manejo correto e, também não são beneficiados com este serviço pela prefeitura, estado, enfim, poder público... Pela ótica destes, apenas a proibição, sem acesso a meio diferente, será sempre um desmando e um convite ao fogo, especialmente, ao mirar seu gado magro e cientes da sua dependência total desta atividade para subsistência. Modificar hábitos ou vícios que existem há gerações incorporados a determinada cultura... requer mais que palavras e leis proibitivas... pede ações educativas e acesso real e socializado a meios ecologicamente corretos que seja implementados como política e ação...

Obrigado e apoio o tema e a causa sim....

vitor reis

Instituto Orbis de Proteção e Conservação da Natureza disse...

Olá, Vitor.
Exatamente por isso esse é um problema de Estado.
O grande proprietário se utiliza justamente dessa situação como um dos meios de justificar a sua ação.
Esse é um problema da sociedade toda e não apenas dos produtores rurais.

antonio disse...

É muito triste ver nossa natureza destruída em nome do progresso. Hoje os senadores querem fazer isso piorar em nome da agricultura, logo nosso futuro esta ameaçado e precisamos impedir que isso aconteça.